Jovens estão lendo mais? O que os dados revelam no Brasil

Jovens estão lendo mais? O que os dados revelam no Brasil

Durante muito tempo, ouvir que os jovens não gostam de ler virou quase um lugar-comum. A imagem de uma geração que passa o dia no celular, assiste a vídeos curtos e tem dificuldade para se concentrar em um livro parece confirmar essa impressão. Mas os números mais recentes do mercado editorial brasileiro trazem uma perspectiva diferente.

Em 2025, cerca de 3 milhões de brasileiros passaram a integrar o grupo de consumidores de livros, segundo uma pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) em parceria com a Nielsen BookData. O crescimento foi especialmente expressivo entre os jovens adultos.

Ao mesmo tempo, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, publicada em 2024, mostrou uma queda preocupante no número de leitores do país. Afinal, os jovens estão lendo mais ou estamos diante de uma mudança na maneira como as pessoas compram, descobrem e consomem livros?

A resposta exige olhar com atenção para os dados. E ela é mais interessante do que simplesmente dizer que os livros estão voltando à moda.

Os jovens estão lendo mais livros no Brasil?

Os dados mais recentes indicam um aumento no consumo de livros entre os jovens adultos brasileiros. O resultado aparece no Panorama do Consumo de Livros, estudo realizado pela Câmara Brasileira do Livro em parceria com a Nielsen BookData e divulgado em março de 2026.

Segundo o levantamento, 18% da população brasileira com 18 anos ou mais comprou pelo menos um livro nos 12 meses anteriores à pesquisa, realizada em outubro de 2025. O percentual representa um crescimento de dois pontos percentuais em relação ao ano anterior, equivalente a aproximadamente 3 milhões de novos consumidores.

O avanço foi ainda mais expressivo entre as pessoas de 18 a 34 anos. Quando somadas, essas faixas etárias registraram um crescimento de 3,4 pontos percentuais na participação entre os consumidores de livros.

Isso ajuda a entender por que a presença de jovens em livrarias, feiras literárias e eventos com escritores tem chamado tanta atenção.

No entanto, existe uma diferença importante: a pesquisa mede o consumo, ou seja, a compra de livros. Ela não comprova, por si só, que todos esses consumidores estejam lendo mais páginas, terminando mais obras ou mantendo uma rotina frequente de leitura.

Ainda assim, os números mostram que existe interesse comercial pelo livro entre pessoas que cresceram em um mundo dominado por telas, aplicativos e redes sociais.

O que está levando os jovens a se interessar por livros?

Não existe uma única explicação para esse movimento. A popularização de conteúdos literários nas redes sociais, a influência de amigos e criadores de conteúdo e o interesse por determinados gêneros ajudam a compreender por que tantos livros voltaram a fazer parte das conversas cotidianas.

O BookTok transformou a recomendação de livros

O BookTok, comunidade literária do TikTok, tornou-se um dos espaços mais conhecidos para descobrir novas leituras. Nele, leitores compartilham resenhas, reações emocionais, listas de favoritos e recomendações de obras que despertaram sua atenção.

O formato funciona porque apresenta os livros de uma maneira próxima da experiência de quem está lendo. Em vez de apenas resumir o enredo, muitos vídeos mostram a reação do leitor a uma reviravolta, explicam por que determinado personagem incomoda ou contam como uma história surpreendeu suas expectativas.

Esse tipo de conteúdo pode despertar a curiosidade de quem não acompanha lançamentos editoriais e não costuma procurar resenhas em sites especializados.

O efeito também vai além do TikTok. Recomendações circulam pelo Instagram, YouTube, grupos de mensagens e conversas entre amigos. Um livro que parecia desconhecido pode ganhar popularidade porque várias pessoas começam a falar dele ao mesmo tempo.

A pesquisa da CBL aponta que as redes sociais têm participação importante nesse cenário. Entre os consumidores de livros, 56% afirmaram que costumam fazer compras em geral por meio dessas plataformas. Além disso, 70% disseram gostar de acompanhar lançamentos.

Esses números ajudam a mostrar como o ambiente digital pode influenciar a descoberta e a compra de livros.

Os romances e a fantasia continuam conquistando leitores

Outro fator relevante é a variedade de histórias disponíveis. Romance, fantasia, ficção científica, suspense e ficção voltada ao público jovem adulto oferecem experiências diferentes para quem deseja começar a ler ou retomar o hábito.

O levantamento da CBL destaca que títulos de ficção, especialmente os classificados como Young Adult (YA), tiveram participação importante no crescimento do mercado. São obras direcionadas principalmente a adolescentes e jovens adultos, embora também encontrem leitores de outras idades.

Essas histórias costumam explorar relacionamentos, conflitos familiares, amizades, amadurecimento e a busca por identidade. A fantasia, por sua vez, permite conhecer mundos imaginários, enquanto o suspense oferece mistérios e reviravoltas que incentivam o leitor a continuar.

Não significa que todos os jovens estejam interessados nos mesmos gêneros. O ponto é que a diversidade de temas e estilos pode facilitar a descoberta de uma leitura compatível com os gostos de cada pessoa.

Ler também virou uma atividade social

Durante muito tempo, a leitura foi apresentada principalmente como uma atividade individual: uma pessoa, um livro e um momento de silêncio.

Essa experiência continua existindo, mas hoje é possível compartilhar boa parte do que acontece durante a leitura. Clubes do livro, leituras coletivas, comunidades online e encontros com autores criam oportunidades para conversar sobre personagens, finais e interpretações.

Esse aspecto social é uma das mudanças mais interessantes do cenário literário atual. A pessoa não precisa apenas encontrar um livro de que goste; também pode encontrar outras pessoas com interesses parecidos.

Isso ajuda a explicar o apelo de comunidades literárias e eventos que aproximam leitores. O livro deixa de ser apenas um objeto comprado para a estante e passa a funcionar como ponto de partida para conversas e experiências compartilhadas.

Mas os brasileiros estão lendo mais ou menos?

É aqui que a discussão fica mais complexa. Enquanto os dados de consumo mostram crescimento entre 2024 e 2025, a pesquisa nacional sobre hábitos de leitura divulgada em 2024 revelou uma realidade preocupante.

A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, em parceria com a Fundação Itaú e o Ministério da Cultura, apontou que 53% dos brasileiros entrevistados não haviam lido nem parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa.

O levantamento considerou livros impressos e digitais, de diferentes gêneros, incluindo materiais didáticos e religiosos. Pela primeira vez na série histórica do estudo, os não leitores representaram a maioria da população pesquisada.

A pesquisa também identificou uma redução de 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024.

Esses resultados parecem entrar em conflito com o crescimento das compras de livros. Porém, os dois levantamentos medem coisas diferentes.

A pesquisa da CBL investiga o comportamento de compra de pessoas com 18 anos ou mais. Já a Retratos da Leitura no Brasil considera o hábito de leitura da população a partir dos cinco anos, usando como critério ter lido ao menos parte de um livro nos três meses anteriores à entrevista.

Uma pessoa pode comprar vários livros e não terminar nenhum. Outra pode ler regularmente obras emprestadas, livros digitais gratuitos ou exemplares que já possui em casa, sem comprar nada naquele período.

Portanto, não é correto concluir que o crescimento das compras comprova uma recuperação geral do hábito de leitura. Da mesma forma, os dados de 2024 não permitem afirmar que o número de leitores continuou caindo em 2025 ou 2026.

Para responder a essa pergunta com segurança, seria necessário comparar levantamentos de hábitos de leitura realizados em períodos equivalentes.

Por que comprar um livro não significa necessariamente criar o hábito de leitura?

Comprar um livro pode ser o primeiro passo para uma nova rotina, mas não garante que ela aconteça.

Às vezes, a pessoa se interessa por uma capa, recebe uma indicação ou vê uma história viralizar nas redes sociais. Compra o exemplar, começa a leitura e acaba deixando o livro de lado por falta de tempo ou porque a história não correspondeu às expectativas.

Isso não significa que a compra tenha sido inútil. Descobrir os próprios gostos também faz parte de encontrar boas leituras. O problema aparece quando o livro fica sempre para depois e nunca encontra espaço na rotina.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil identificou a falta de tempo como a principal razão citada pelos leitores para não terem lido mais livros nos três meses anteriores ao levantamento. Entre os não leitores, a resposta mais frequente foi não gostar de ler.

Essas respostas indicam que incentivar a leitura envolve mais do que colocar livros à venda. É importante que as pessoas tenham acesso a obras que despertem seu interesse e encontrem condições para ler.

Para quem deseja desenvolver esse hábito, algumas mudanças simples podem ajudar:

  • Começar por um gênero de que você realmente gosta. Não é necessário iniciar pelos clássicos mais famosos ou pelos livros considerados obrigatórios.
  • Reservar alguns minutos do dia para ler. Um período curto e realista pode ser mais fácil de manter do que uma meta muito ambiciosa.
  • Deixar o livro em um lugar acessível. Ter a leitura por perto facilita aproveitar momentos livres.
  • Conversar sobre as histórias. Trocar recomendações com amigos ou participar de um clube do livro pode ajudar a encontrar novas obras.
  • Permitir-se abandonar uma leitura que não funcionou. Nem todo livro combina com todo leitor, e experimentar diferentes estilos faz parte do processo.

Para mim, o mais importante é não transformar a leitura em mais uma obrigação. Ela pode trazer conhecimento, mas também pode ser entretenimento, descanso, curiosidade ou uma forma de se conectar com outras pessoas.

O celular está afastando os jovens dos livros?

É comum colocar o celular e a leitura em lados opostos. De um lado, as redes sociais, os vídeos curtos e as notificações; do outro, o tempo necessário para acompanhar uma história.

Existe uma preocupação legítima com a disputa pela atenção. Aplicativos oferecem conteúdos rápidos e variados, enquanto um livro exige que o leitor acompanhe personagens, acontecimentos e ideias ao longo de várias páginas.

Mas a relação entre tecnologia e leitura não é tão simples.

O celular também permite ler livros digitais, acessar bibliotecas online, descobrir autores, acompanhar histórias seriadas e participar de comunidades literárias. Para algumas pessoas, ele funciona como porta de entrada para novas leituras.

Uma pesquisa sobre o perfil e os hábitos do leitor digital brasileiro, divulgada em setembro de 2026, estimou que aproximadamente 94 milhões de brasileiros haviam usado algum dispositivo eletrônico nos 12 meses anteriores para acessar conteúdos como notícias, livros, audiolivros, quadrinhos e mangás.

Esse conceito de leitura digital é amplo e inclui diferentes tipos de conteúdo. Por isso, o número não deve ser interpretado como se 94 milhões de pessoas tivessem lido livros inteiros em formato digital.

Ainda assim, ele mostra que o consumo de conteúdo escrito em dispositivos eletrônicos faz parte da rotina de uma parcela significativa da população.

A questão, portanto, não é simplesmente abandonar as telas. É entender como usá-las a favor da leitura e encontrar um equilíbrio entre as diferentes atividades do dia.

O que os dados dizem sobre o futuro da leitura entre os jovens?

O cenário atual apresenta sinais positivos e desafios importantes.

De um lado, o mercado registrou crescimento no número de consumidores de livros em 2025, com destaque para as faixas etárias de 18 a 34 anos. Redes sociais, criadores de conteúdo e comunidades literárias também ampliaram as maneiras de descobrir obras e conversar sobre elas.

De outro, a pesquisa nacional de hábitos de leitura publicada em 2024 mostrou que o Brasil ainda enfrenta dificuldades para manter e ampliar seu público leitor.

Essas duas realidades podem coexistir. Um mercado que vende mais livros não é necessariamente um país em que todos leem com maior frequência. E uma geração que demonstra interesse por literatura nas redes sociais não representa, sozinha, toda a população jovem.

O desafio é transformar a curiosidade inicial em experiências de leitura que façam sentido para cada pessoa. Isso depende de acesso aos livros, variedade de títulos, incentivo à leitura e oportunidades para que leitores encontrem histórias com as quais se identifiquem.

Também é importante continuar acompanhando novas pesquisas. Os dados disponíveis ajudam a identificar tendências, mas não permitem prever com certeza como os hábitos de leitura vão evoluir nos próximos anos.

Afinal, os jovens estão lendo mais?

Os dados mais recentes mostram que o consumo de livros cresceu no Brasil em 2025 e que os jovens adultos tiveram destaque nesse movimento. A influência das redes sociais, a popularidade de determinados gêneros e a força das comunidades literárias ajudam a compreender parte desse interesse.

Entretanto, ainda não é possível afirmar, com base nesses números de consumo, que os jovens brasileiros estejam lendo mais frequentemente ou que o país tenha revertido a queda registrada na pesquisa de hábitos de leitura de 2024.

A conclusão mais segura é que o relacionamento entre os jovens e os livros está mudando, e as redes sociais fazem parte dessa transformação. Saber se esse interesse vai se converter em um hábito duradouro depende de acompanhar os próximos levantamentos e entender como as pessoas estão incorporando a leitura ao cotidiano.

No fim, talvez a pergunta mais útil não seja apenas se os jovens estão lendo mais, mas o que faz alguém encontrar um livro de que goste e querer começar o próximo.

E você? Acha que as redes sociais estão aproximando os jovens da leitura ou que o interesse pelos livros ainda precisa se transformar em um hábito mais frequente?

Eduardo Machion

Eduardo é fundador do Literatour, um dos maiores clubes de assinatura de livros usados do Brasil. Apaixonado por literatura, cultura e internet desde os tempos da blogosfera dos anos 2000, criou o projeto com o objetivo de aproximar leitores de grandes histórias de forma acessível e sustentável. Também atua na produção de conteúdo digital, com foco em artigos sobre livros, curiosidades literárias e entretenimento.

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