Uma das experiências mais marcantes na minha vida de educadora é, sem dúvida, a de contadora de histórias.
Não importa a idade dos meus ouvintes. Pode ser para uma platéia de 3, 4, 10 anos ou mais. Ou então para adultos,
geralmente professores, alunos, pais e demais educadores. O meu encantamento e o deles é sempre algo especial.
Cada público te dá um retorno diferente. Os pequenos te enchem de alegria e entusiasmo pela vida. Querem beijo, querem
abraço, querem mais histórias. O público adulto te emociona pelo olhar, pelo sorriso agradecido pela oportunidade de
vivenciar momentos de emoção e fantasia em meio à dura realidade.
Há poucas semanas, em uma cidade do interior do RS, contei história para um público da EJA e do MOVA.
As idades variavam entre 20 e 70 anos, mais ou menos. O público era pequeno, umas 20 pessoas, o que me dava
possibilidade de olhar nos olhos de cada um. A atenção era completa. Um misto de curiosidade, alegria e expectativa
brilhava naqueles pares de olhos atentos. O olhar de cada um amarrado ao meu olhar por um tênue fio de prata.
Mas tinha um em especial que se destava dos demais. Era o de uma senhora de aproximadamente 70 anos que
parecia beber cada palavra, cada gesto meu. No final, ela veio me abraçar e dizer da emoção que havia sentido
e do quanto ela tinha gostado de ouvir aquela história. Aí então, fomos fazer um lanche e ela não saiu mais do meu lado.
Contou-me um pouco da história da sua vida. Uma vida extraordinária, cheia de dor, de muito abandono, muita luta,
muita coragem. Uma vida que ela estava tentando recomeçar, agora, aos 70 anos.
Nessa nova vida ela decidiu que ia correr atrás do sonho que havia adiado até então em favor dos outros.
Do sonho de poder ler sem depender de ninguém.
Hoje seus dias se dividem entre a escola MOVA e as visitas semanais que faz ao filho na prisão. E na próxima visita,
confessou, ela quer contar a história que ouviu para o seu filho e com isso levar a ele um pouco de alegria e esperança.
A mesma alegria e esperança que ela sentiu a partir da magia da fantasia.
Essa seria a primeira vez que ela iria contar uma história para o seu filho.